A Postura No Violão Clássico/Erudito

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Esse é um assunto que vai longe…muito longe. Minha intenção é escrever com mais calma a respeito, mas a princípio queria transmitir uma ideia bem genérica: Não existe uma única maneira de se posicionar o instrumento na hora de tocar violão (clássico ou não!).

Minha intenção é tentar contribuir para derrubar esse mito, de que o violão clássico se toca apoiando o instrumento na perna esquerda e o popular na perna direita.
Não me importa muito discutir de onde vem essa ideia, mas basta pensar o seguinte: se eu tocar Beatles com o violão na perna esquerda, a música passa a ser clássica simplesmente porque eu troquei de perna? Obviamente, não!
O que define violão clássico/popular é o repertório que você vai tocar e a maneira como irá abordá-lo.

Postura com o instrumento é uma questão de saúde e eficiência técnica (alcançar um bom resultado mecânico com o menor desgaste/esforço possível). Não tem a ver com atitude, estilo musical ou outra coisa qualquer.

Bom, para ilustrar o que estou dizendo, vou colocar a seguir uma seleção de vídeos de grandes violonistas clássicos, alguns de minha preferência, outros nem tanto. Mas todos abaixo eu considero exemplos de músicos que conseguiram encontrar uma boa postura. Vocês vão ver quantas possibilidades existem, e espero que isso ajude a quebrar o mito de que só existe uma maneira certa.

Como ponto de partida para tudo que se refere a violão clássico, o espanhol Andrés Segovia.  Aqui tocando magistralmente uma obra de Fernando Sor. Esse vídeo sempre é usado por professores  como exemplo de alguém que toca sem tensões, relaxado. Fábio Zanon e Everton Gloeden já me disseram que consideram este vídeo um dos grandes momentos do violão!
Repare como os ombros estão relaxados (apesar de não muito alinhados), a mão direita cai tranquilamente sobre o violão, o braço esquerdo viaja com leveza pelo braço. Uma beleza!

Aqui, outro que encontrou sua maneira (não tão diferente da de Segovia, com quem estudou!) relaxada e saudável de tocar: John Williams.

Aqui, o italiano Carlo Marchione. Conheci seu trabalho faz pouco tempo, mas é um cara que me impressionou muito! Neste vídeo, onde infelizmente o áudio não faz justiça à execução, outra aula de domínio completo sobre o violão, tocado sem esforço.
Repare que aqui o violão já está mais inclinado em comparação aos vídeos anteriores, o que faz com que o braço do instrumento fique mais alto. Veja como não há regras!

Outro mestre! David Russell, aqui um perfeito exemplo de como posicionar o violão com os ombros alinhados. Repare no pé direito do senhor no vídeo! Uma comédia…

Aqui o que é provavelmente o exemplo mais radical de mudança em busca de uma maneira confortável de tocar: Paul Galbraith. Alguma semelhança com o primeiro vídeo, a não ser o fato de ambos estarem felizes com sua própria maneira de tocar?

Aqui, o espanhol Ricardo Gallen, tocando Bach (que até onde eu sei, não é um compositor popular =P) com o violão na perna direita! Não sei se é a postura mais indicada para tocar violão (eu não me sinto bem cruzando as pernas desse jeito pra tocar), mas é um grande músico e não parece apresentar dificuldades técnicas por conta da postura.

Existem inúmeros outros exemplos pelo youtube e nos festivais de violão (visite o mais próximo de você!). O que quero mostrar é que tocar violão clássico não depende de como você posiciona o seu instrumento, e sim da maneira como você pensa e encara as músicas que toca.
Converse com seu professor para encontrar a que melhor se adequa a você e fuja das regrinhas prontas.
Um pessoa de 1,90m de altura NÃO VAI tocar violão na mesma posição que alguém de 1,50m. Regras pré-estabelecidas só servem para gerar desconforto e frustração na hora de tocar.

Bons estudos!

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Quantas Horas Estudar de Música?

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Essa é uma das perguntas mais frequentes que ouço dos meus alunos iniciantes!

“Quantas horas devo estudar de violão por dia para aprender a tocar bem?”, “Quanto tempo devo me dedicar a guitarra para conseguir tocar as primeiras músicas?”, e todas as variações possíveis a esses questionamentos.

O tempo de prática no começo do aprendizado não deve ser muito longo, por duas razões básicas:

Primeiro, no início o aluno não deve ser sobrecarregado com exercícios e músicas para praticar (isso cabe ao professor dosar). Logo, se não há muito material para praticar, não há necessidade de horas e horas diárias de estudo para dar conta.

Segundo, no início o aluno precisa acostumar aos poucos sua musculatura para a prática do instrumento. Não é saudável nas primeiras semanas passar horas e horas numa postura que você não está acostumado, ainda mais realizando uma atividade nova e exigente como tocar um instrumento.

Por isso, o que eu recomendo no início é que o aluno dedique-se por volta de 30 a 40 minutos diários ao instrumento. Obviamente, exercícios de teoria, solfejo, rítmica e outros do tipo podem e devem ser acrescidos a esses minutos, já que eles não causam lesões! Mas deve-se observar o  primeiro aspecto comentado anteriormente: não sufocar o aluno iniciante com dezenas de exercícios.

Caso a empolgação seja grande no aluno, e este queira praticar 1h ou mais por dia, é importante dividir esse tempo em mais de uma sessão de estudos. Nem mesmo músicos profissionais deveriam passar mais que 1h praticando sem intervalos, quanto mais alguém que está se adaptando a esta atividade.
Neste caso, se o aluno separar bem as sessões de estudos, ele pode praticar até mesmo 1h30 por dia. Algo como 30 min. pela manhã, 30 min. de tarde e 30 min. de noite.

Conforme o aluno for se sentindo mais confortável com o estudo, sem sentir cansaço (físico e mental), o tempo de dedicação diário pode chegar até mesmo a 6hs, 8hs…tudo depende do seu objetivo com o estudo.  Você quer ser um profissional, tocar por diversão, incentivar seus filhos a estudar música? Esse é o fator que vai definir o tempo ideal.

Como tudo em música, o acompanhamento de um professor experiente é fundamental para elaborar uma rotina saudável a produtiva de estudo. Isso é o segredo para longos e prazerosos anos de dedicação à música.

No próximo post, vou falar um pouco mais sobre como desenvolver uma maneira produtiva de praticar violão e guitarra. Como abordar diretamente as dificuldades que se encontram em uma música nova, e não perder nosso precioso tempo “chovendo no molhado”.

Até lá!

Para entrar em contato, use o email contato@andrepriedols.com, ou deixe uma mensagem nos comentários do post.

Saúde do Músico: Sobre alongamentos

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EDIÇÃO (14/04/2013) – gostaria de incluir e recomendar fortemente o seguinte link:
http://oglobo.globo.com/blogs/pulso/posts/2013/04/03/o-alongamento-prejudicial-ou-nao-ao-desempenho-492099.asp

(sempre com a ressalva de que os estudos citados na reportagem são voltados para esportes e não para música)

* Não deixe de ler os comentários do post, que contou com contribuições interessantes a respeito do tema.

Na nutrição, alguns alimentos são alternadamente endeusados e contestados pelos especialistas. Num mês são a salvação da sua saúde, no mês seguinte são o caminho mais curto para um câncer! É o caso do ovo, do tomate, do café e etc…a lista não tem fim.

Nós músicos temos um eterno dilema, nos mesmos moldes: o alongamento!
Conforme o tema “saúde do músico” ganha espaço, o assunto “alongamento” vai ficando mais e mais confuso.

Se você é músico e nunca pensou sobre o assunto, espero que este texto te estimule a pesquisar mais. De cara deixo claro que minha intenção não é dar a resposta “certa”, estabelecer uma regra ou coisa do tipo. Pretendo apenas relatar muito do que já ouvi sobre o assunto, descrever a MINHA rotina/experiência e, quem sabe, contribuir para que cada leitor busque a rotina que mais se adequa a suas características.

Os termos técnicos vão passar longe desse texto, então já peço desculpas aos fisioterapeutas que, porventura, venham a visitar o blog. Mas sintam-se à vontade para contribuir!

Vamos discutir o assunto em forma de perguntas/respostas, abordando as principais dúvidas. Seja você iniciante ou músico profissional, esse assunto é crucial!

– Que especialista estuda este assunto?
Esse é nosso primeiro problema. Os especialistas que se debruçam a pesquisar sobre os efeitos do alongamento no desempenho físico em geral estão voltados à prática de esporte (especialmente os de alto rendimento) ou a terapia ocupacional. Ao redor do mundo contam-se nos dedos os estudiosos que abordam especificamente a prática dos músicos.
Não é preciso pesquisar muito para notar que as necessidades de um corredor de maratona profissional são diferentes de um flautista de orquestra.
Por isso, muito cuidado ao adotar recomendações de fisioterapeutas, pois elas podem estar dirigidas a uma prática bem diversa da sua, músico!
Ao se consultar com algum médico, deixe claro que você é músico, qual sua rotina de estudos/concertos, mostre como é a postura que você usa para tocar e, se possível, leve seu instrumento ao consultório para uma demonstração prática.
Lembre-se que, para que os médicos chegassem a conclusões a respeito dos esportistas, foram necessárias décadas de estudo, inclusive estudo de campo. Não se contente em dizer “ah, eu toco violino!”. MOSTRE!

– Há consenso entre os especialistas?
Outra pergunta importante. Não, não há consenso! Uma rápida pesquisa à lá Google coloca a três linhas de distância artigos sérios praticamente antagônicos. Isso quando estamos falando das áreas mais estudadas da fisioterapia (esportes, etc.). Imagine agora quando partimos para o nebuloso mundo dos instrumentistas! Por isso, nunca encare um artigo como verdade absoluta.
Tenho amigos que mantiveram uma certa rotina de alongamentos durante anos, e sempre sentiram-se bem com ela. Após alguma “dica” milagrosa que leram em algum lugar, mudaram radicalmente seus hábitos. Que esse tipo de mudança brusca e mal orientada faz mal, é um dos poucos consensos entre os médicos.

– Quais as principais indicações dadas aos músicos?
Existem diversas séries de alongamentos específicos a cada grupo muscular, e que se aplicariam melhor a cada músico.  Um violOnista, que pratica o tempo todo sentado, exige muito mais de sua musculatura lombar do que um violInista, que pode alternar entre estudar sentado e de pé.
Porém, o objetivo deste post não é ser específico nem substituir uma orientação especializada, mas sim abordar genericamente o assunto. Então, vamos às duas recomendações genéricas mais comentadas:

  • alongar antes do estudo: essa recomendação parte do princípio de que, antes de tocar, estamos com os músculos “despreparados” para a prática, e que o alongamento serviria para essa preparação. (lembre-se de que não domino os termos técnicos)
    Alguns colegas adeptos dessa rotina descrevem a sensação de tocar sem alongamento como tendo as mãos “amarradas”, e que o alongamento “solta” os músculos.
    Particularmente, acho algo agressivo ao corpo realizar alongamentos ANTES da prática. De qualquer forma, se você pratica isso, NUNCA SE ESQUEÇA DE AQUECER o grupo muscular ANTES de alongar.
    Partir do repouso e ir direto ao alongamento é uma das melhores técnicas para se obter uma LESÃO, especialmente no frio.
    Para se aquecer você pode fazer até mesmo uma leve caminhada de uns 5 minutos, para que o sangue circule em maior abundância pelo seu corpo (inclusive músculos), e aí então você estará preparado para se alongar.
    O fato de alguns recomendarem o alongamento ANTES da prática, não quer dizer que eles não recomendem alogamentos APÓS a prática. As variações de recomendações, como já disse, são inúmeras.
  • alongar depois do estudo: é a rotina que aderi! Nunca me alongo antes de tocar. O que faço agora é iniciar com exercícios simples, ou até mesmo uma pequena improvisação no instrumento, visando “soltar” os músculos enquanto me aqueço naturalmente. Nunca realizo passagens com aberturas grandes para os dedos ou de explosões bruscas de velocidade. Tudo muito gradual, durante uns 5 minutos.
    Depois desse pequeno aquecimento, me sinto confortável e aquecido o suficiente para realizar as passagens mais exigentes tecnicamente.
    Por fim, após uma sessão de estudos (a divisão de estudos em pequenas sessões é crucial para sua saúde! Abordarei o tema em outro post), aí sim eu realizo um leve alongamento, com o intuito de relaxar a musculatura usada na prática de estudo. Faço tudo muito lentamente e sem esforço, pois a intenção agora é “desaquecer” o corpo.

Essas duas práticas, apesar de antagônicas, possuem suas recomendações em comum:

  • nunca inicie seus estudos com as passagens mais complexas mecanicamente
  • nunca estude por longos períodos sem pausa
  • nunca pratique trechos que exijam a mesma musculatura por longos períodos (trechos com ligados, ou com aberturas, trechos com escalas, com saltos, etc.). Sempre varie, dentro de cada sessão de estudo, trechos com exigências mecânicas diferentes, para não se desgastar.

Novamente, reforço que não quero determinar nem ao menos sugerir a ninguém que siga o que eu pratico. Minha intenção é apenas levar à reflexão. Eu passei anos fazendo alongamentos pesados ANTES de estudar, mas mudei radicalmente.
O que me fez mudar foi o fato de eu ter começado a praticar jogging. Nunca me senti confortável me alongando antes das corridas. Com o tempo resolvi experimentar a sugestão do instrutor de minha academia, de começar com uma leve caminhada de 5 minutos (para aquecimento), depois correr e, por fim, me alongar para “desaquecer” o corpo.
Isso me fez sentir bem mais confortável, e logo pensei em experimentar essa prática na minha rotina de estudos (lembram-se da história das “pesquisas serem voltadas ao esporte, e não à música?”).

Apesar dos anos e anos em que os músicos viveram na idade das trevas a respeito dos cuidados com sua saúde, isso está mudando. Quando eu disse que se contam nos dedos os especialistas voltados para o estudo da saúde do músico, não estou exagerando. Mas, afinal, se eles contam-se nos dedos, ao menos eles existem!
Além disso, não são poucos os músicos que, sentindo essa necessidade de informação, acabam se debruçando sobre livros de anatomia para entender melhor o funcionamento de seu corpo durante o estudo. O triste é saber de casos em que isso só aconteceu APÓS o músico sofrer uma lesão.
O caso no Brasil mais notório é o do oboísta Alex Klein, um dos maiores no instrumento em todo o mundo. Alex teve de interromper sua carreira de instrumentista por conta de uma distonia focal, que é na realidade um problema neurológico e não muscular. O fato é que, por sentir que não havia informação suficiente a respeito do problema, Alex teve de pesquisar por conta própria.
Atualmente ele segue a carreira de músico, mas como regente (hoje em dia é titular da Sinfônica Municipal de São Paulo). Já o vi em ação como regente, e devo dizer que o mundo da regência teve sorte!

Em breve postarei aos interesados uma lista de artigos, teses e livros que abordam o tema da saúde do músico. Além disso, colocarei o contato de alguns médicos no Brasil que têm tratado os principais músicos acerca de problemas ligados à prática musical.

Se você tem alguma correção, sugestão, crítica ou dica valiosa sobre o tema, por favor poste nos comentários. Insisto que a intenção aqui não é esgotar o assunto, apenas inciar a reflexão de quem está começando agora na música. Não tomem decisões baseando-se no que leram aqui e, SEMPRE, consulte um médico de sua confiança quando se trata de saúde!

Por fim, quero dizer que a minha consciência sobre a importância deste tema se deve, majoritariamente, aos grandes professores de instrumento que tive. Antônio Guedes, Ângela Muner, Paulo Martelli e Fábio Zanon, todos sempre foram muito exigentes quanto à postura ao tocar, relaxamento, rotinas saudáveis de estudo entre outros. Se ainda toco diariamente sem sentir dores e com prazer, isso se deve a eles!
Outro local onde aprendi bastante foi o já citado Fórum de Violão: www.violao.org
Vale a pena fazer uma busca a respeito do tema no acervo do site.

Qualquer coisa, entre em contato: contato@andrepriedols.com